Por Leonardo Novaes Bastos
Promotor de Justiça no Estado de Alagoas. Mestre em Direito. Pesquisador e pessoa autista.
Quinta-feira, 8 de outubro de 2026
Há algo de profundamente revelador nas primeiras horas da manhã.
Enquanto a cidade desperta, os motores começam a funcionar, as pessoas conversam, os telefones notificam e os compromissos se acumulam, existe uma realidade que permanece praticamente invisível: nem todos experimentam o início do dia da mesma maneira.
Para algumas pessoas autistas, acordar não significa apenas sair do estado de sono. Significa também reencontrar um ambiente repleto de estímulos, expectativas e exigências que nem sempre respeitam a maneira como seu sistema nervoso processa o mundo.
E talvez exista uma pergunta que raramente fazemos:
Por que consideramos normal exigir que todas as pessoas enfrentem o mesmo mundo, da mesma maneira, quando a própria ciência demonstra que nossos modos de perceber e processar esse mundo são diferentes?
O silêncio também pode ser uma necessidade
Durante muito tempo, comportamentos associados ao autismo foram interpretados predominantemente a partir daquilo que outras pessoas conseguiam observar.
A dificuldade de participar de determinadas interações sociais, o desconforto com ruídos, a preferência por ambientes previsíveis ou a necessidade de isolamento eram frequentemente compreendidos sem atenção suficiente às experiências internas de quem os vivenciava.
Entretanto, o conhecimento científico contemporâneo demonstra que diferenças no processamento sensorial constituem características relevantes do espectro autista.
Isso significa que estímulos aparentemente banais podem ser experimentados de maneira significativamente diferente.
O som de uma motocicleta. Uma conversa em volume elevado. Uma televisão ligada. O ruído de talheres. Uma sequência inesperada de interrupções.
O que para uma pessoa representa apenas o cenário habitual da manhã pode, para outra, produzir desconforto intenso ou contribuir para uma sobrecarga sensorial.
Naturalmente, não são todas as pessoas autistas que apresentam hipersensibilidade aos mesmos estímulos. O espectro é heterogêneo, e as características sensoriais variam entre indivíduos e contextos.
Mas reconhecer essa diversidade deveria transformar nossa maneira de compreender o comportamento humano.
O silêncio, para algumas pessoas, não representa ausência de vida. Representa uma condição favorável para vivê-la.
A obrigação invisível de parecer bem
Existe outra dimensão particularmente importante na experiência de muitos adultos autistas: o esforço de corresponder às expectativas sociais.
Cumprimentar quando não se deseja conversar. Manter contato visual apesar do desconforto. Participar de interações prolongadas. Ocultar movimentos autorregulatórios. Demonstrar tranquilidade mesmo diante de estímulos excessivos.
Esses comportamentos podem integrar aquilo que a literatura científica denomina camuflagem social (social camouflaging).
Uma metassíntese qualitativa publicada em 2024 na revista Autism, reunindo 13 estudos, identificou que determinadas estratégias de camuflagem podem envolver elevada demanda cognitiva, automonitoramento e exaustão.
Os pesquisadores também observaram possíveis repercussões negativas sobre a saúde mental e a percepção da própria identidade.
É importante esclarecer: os resultados não autorizam afirmar que toda camuflagem provoca adoecimento ou que todas as pessoas autistas a experimentam negativamente.
O que a literatura permite reconhecer é que a adaptação social, especialmente quando exige esforço contínuo, pode envolver custos psicológicos importantes.
E isso nos conduz a uma reflexão.
Quantas pessoas são consideradas plenamente adaptadas apenas porque aprenderam a esconder o próprio sofrimento?
A produtividade não revela toda a experiência humana
Vivemos em uma sociedade que frequentemente associa valor pessoal à capacidade de produzir, comunicar, comparecer e responder.
Quem trabalha muito é admirado. Quem participa de tudo é considerado sociável. Quem suporta ambientes difíceis sem reclamar costuma ser descrito como resiliente.
Entretanto, desempenho externo e bem-estar interno não são equivalentes.
Uma pessoa autista pode apresentar excelente capacidade intelectual, sólida formação acadêmica, responsabilidade profissional e autonomia em diversos aspectos da vida, sem que isso elimine necessidades específicas de apoio ou acessibilidade.
A Organização Mundial da Saúde reconhece expressamente a heterogeneidade do autismo e observa que as necessidades e capacidades das pessoas autistas variam, inclusive ao longo da vida.
Não existe contradição entre competência e necessidade de adaptação.
Também não existe contradição entre independência e vulnerabilidade em determinados contextos.
O equívoco está em imaginar que o funcionamento humano pode ser medido por uma única régua.
O direito de começar o dia sem representar um personagem
Talvez precisemos abandonar a expectativa de que toda pessoa deva começar a manhã demonstrando entusiasmo, disponibilidade social e disposição imediata para interações.
Para alguns indivíduos autistas, a previsibilidade pode favorecer a organização cotidiana. Para outros, a redução de estímulos pode contribuir para o conforto sensorial.
Há aqueles que preferem acordar cedo para aproveitar a tranquilidade. Outros precisam de mais tempo para realizar transições entre atividades. E existem pessoas autistas que não apresentam nenhuma dessas preferências.
Nenhuma experiência isolada representa todo o espectro.
É justamente por isso que a inclusão exige atenção individualizada, e não a substituição de um estereótipo por outro.
A verdadeira acessibilidade não consiste em presumir o que uma pessoa necessita. Consiste em criar condições para que suas necessidades sejam reconhecidas e consideradas.
No trabalho, na escola, na família ou nos espaços públicos, pequenas mudanças podem fazer diferença: comunicação clara, redução de estímulos desnecessários, respeito aos momentos de pausa e maior previsibilidade quando possível.
Não se trata de transformar o mundo em um ambiente permanentemente silencioso.
Trata-se de reconhecer que a convivência não exige uniformidade.
Uma reflexão para esta quinta-feira
Nesta manhã, enquanto milhões de pessoas iniciam suas atividades, talvez algumas estejam enfrentando desafios que ninguém consegue enxergar.
Pessoas que dormiram, mas não se sentem suficientemente descansadas.
Pessoas que desejam participar da sociedade, mas precisam administrar cuidadosamente sua exposição a determinados ambientes.
Pessoas que encontram tranquilidade na madrugada porque, por algumas horas, diminuem as interrupções e as exigências sociais.
Isso não constitui, por si só, uma característica diagnóstica do autismo. Tampouco significa que todas essas experiências sejam exclusivas das pessoas autistas.
Mas são vivências que merecem atenção, especialmente quando aparecem associadas a diferenças sensoriais, dificuldades de autorregulação ou sofrimento persistente.
A ciência não nos autoriza a romantizar o sofrimento. Também não nos autoriza a transformar qualquer preferência por silêncio em manifestação de autismo.
O que ela oferece é algo mais importante: elementos para compreender diferenças reais e construir respostas proporcionais às necessidades individuais.
Ao final, talvez a pergunta mais relevante não seja quanto uma pessoa consegue suportar antes de demonstrar sofrimento.
Talvez seja quanto sofrimento poderia ser evitado se aprendêssemos a respeitar suas particularidades.
Porque existir em sociedade não deveria exigir a renúncia permanente à própria maneira de ser.
Nesta quinta-feira, desejo que o mundo seja um pouco menos exigente com aquilo que não compreende.
E que cada pessoa, autista ou não, possa começar o dia sem precisar justificar a legitimidade da própria existência.
Fundamentação científica
1. Organização Mundial da Saúde (2025). Autism. Documento de referência sobre heterogeneidade do espectro, características sensoriais, necessidades de apoio e inclusão.
https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/autism-spectrum-disorders-%28asd%29
2. Field, S. L., Williams, M. O., Jones, C. R. G., & Fox, J. R. E. (2024). A meta-ethnography of autistic people’s experiences of social camouflaging and its relationship with mental health. Autism, 28(6), 1328–1343.
DOI: https://doi.org/10.1177/13623613231223036
3. Pagán, A. F., Flint, D. D., & Loveland, K. A. (2024). Diagnosing Autism in Adults: Clinically Focused Recommendations. Journal of Health Service Psychology, 50(2), 103–111.
DOI: https://doi.org/10.1007/s42843-024-00108-0
Nota metodológica: Este texto é um artigo de reflexão fundamentado em literatura científica, e não uma pesquisa empírica original. As experiências descritas são exemplos ilustrativos, não características universais ou critérios diagnósticos isolados. Associações identificadas em estudos observacionais e qualitativos não demonstram, necessariamente, relações de causalidade.
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